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Uma longa jornada

Aos meus olhos, o amor sempre foi esse sentimento avassalador, belo, repleto de cuidado e carinho. Idealizado? Talvez! É essa força incondicional capaz de fazer o extraordinário acontecer. A crença e a realidade, entretanto, não poderiam ser mais opostas. Eu era um pote cheio de tristeza, prestes a transbordar.

Me lembro de estar sentada no antigo sofá da minha casa, numa tarde quente de agosto a me perguntar em voz alta: “Você ama esse homem mais do que a si mesma?”. Naquele momento estava ciente de que vivia um relacionamento que me mortificava, cheio dos mais traiçoeiros abusos, mas do qual não conseguia me desvincilhar.

A pergunta que fiz ecoou na minha cabeça por mais tempo que deveria.

Eu sempre busquei o amor do outro, nunca o meu. Nunca acreditei nisso de se amar, parecia papo para vender livro de auto-ajuda. Sempre estive interessada, entretanto, em ser validada, me esforçava para ser a melhor no que me propunha a fazer, para ser admirada, para dar orgulho aos outros. Viver bullying por quase uma década enquanto estava na escola, me privou de desenvolver qualquer consciência de que tinha valor próprio. Acreditava que era apenas o que provava ser – e isso me levou a me submeter a situações humilhantes, agressivas e desconfortáveis em troca de ouvir um punhado palavras que me faziam sentir que era alguém que valia a pena.

Naquele momento, contudo, a escolha era simples. Continuar amando o homem que deliberadamente me fazia mal ou tentar me proteger dele. Era ele ou eu.

Eu me escolhi.

Nunca tive compaixão por mim, nunca fui gentil comigo, mas essa escolha me levou a querer viver uma vida melhor e isso implicava justamente em destinar a mim todo aquele amor que dediquei aos outros. Fazer as pazes com quem sou pareceu algo complicado no começo, porque havia muita culpa. Era fácil crer que determinadas coisas não teriam acontecido comigo se tivesse cuidado melhor de mim, feito melhores escolhas. É fácil demais se punir, sabe

Uma vez que a culpa saiu de cena, as coisas mudaram radicalmente. Rolou um match comigo mesma. Meus dias passaram a ser mais fáceis, mais leves e divertidos. A angústia que sempre me tomava agora aparece de vez em quanto, fica um tempo e logo some.

Escolhi me amar tardiamente – antes tarde que nunca, certo? Apesar disso foi uma escolha consciente e o cheia de poesia daquele amor que idealizava. Descobri que sou meu melhor par. Tenho uma longa jornada pela frente. O próximo passo agora é aprender a como dançar.