A primeira exposição

Sou aquele tipo que vai a exposições e fica parada em frente as obras durante longos minutos, fascinada com os detalhes da criação. Quando fui ver minhas fotografias expostas, entretanto, pouco notei sobre o trabalho que fiz. Eu queria deixar registrado para sempre em minha memória o ambiente, os sons ao redor, o modo como as pessoas reagiam as fotografias.

– Olha! Olha! – observei de longe essa que foi a reação mais efusiva, de uma jovem que passava conversando animada com seu grupo, irrompendo para apontar para minhas fotos.

Ninguém realmente parou para ver nenhuma delas enquanto era a observadora da cena, embora algumas senhoras pararam para ler do que se tratava. Isso não é decepcionante. As fotografias estão em um lugar de passagem dentro da Estação Pinheiros da CPTM, aqui em São Paulo.

A CPTM e o Senac Lapa Scipião têm uma parceria para expor obras dos alunos e professores nas estações de trem periodicamente. Eu estudei nessa unidade e meus professores adoravam minha turma – tanto que lutaram para que fosse ela a escolhida para expor em três estações.

A exposição Claro & Escuro, da qual faço parte, também conta com as obras dos meus colegas Ana Di Castro, Leando Salles e Alessandra Senna. Existem outras duas: Difusão, na Estação Franco da Rocha, com fotografias de Luiza Fernandes, Giovanna Gouveia e Wagner Monteiro que falam sobre tradições culturais e ritos religiosos. Moradia está na Estação Luz, e trata sobre o que forma um lar em suas diversas formas, com trabalhos de Ananda Migliano, Márcia Correa e Erlância Souza.

Claro & Escuro

A mostra fala do contrastes sobre o olhar estereotipado da sociedade sobre as mulheres – em suas doenças, traumas e sexualidade – e sua verdadeira essência, que não busca atender padrões ou expectativas. Foi o modo que conseguimos pensar para unir fragmentos dos trabalhos autorais que desenvolvemos durante os quase dois anos de curso.

O trabalho realizado durante esse tempo pelo Leandro e Alessandra era focado no câncer questionando, através das marcas e mutilações decorrentes das cirurgias de retirada de tumores, a brutalidade do tratamento e os interesses de grandes corporações que lucram com o modo invasivo com que a doença é tratada e a relação das pacientes com seu próprio corpo.

Foto exposta de Leandro Salles

A obra da Ana aborda o BDSM (sigla usada para bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo), sua prática e sensualidade, além dos preconceitos sofridos por essa cultura que levam ao desejo de anonimato por parte de seus praticantes, justamente por causa de rótulos negativos que os cercam. A perspectiva de mudar essa realidade de mistério para algo aberto e sem estigmas é a abordagem central feita pela fotógrafa.

Foto exposta de Ana Di Castro

As minhas fotos são autorretratos que contam de uma maneira muito simbólica o quão solitária e dolorida é a vida após o estupro – algo que vivi há alguns anos atrás pelas mãos de um ex-parceiro. A melancolia, vulnerabilidade, rejeição ao próprio corpo e ao sexo, somados a não-conformação com os rótulos pouco sensíveis de vítima ou de mulher forte causam o contraste da temática que escolhi.

Eu disse algo parecido no instagram quando postei por lá sobre a exposição: é estranho que algo que me fez sofrer tanto quanto um estupro consiga, de uma forma muito remota, me fazer sentir essa alegria descompensada por ter expressado toda essa tristeza inacabada por meio da minha fotografia que agora está ali, dentro de uma das estações de trem mais movimentadas da cidade, se confundindo com a paisagem do Rio Pinheiros atrás dela.

De tudo isso, o que mais me deixa sorridente é saber que ninguém que vê a minha fotografia por ali sabe o que eu passei ou por quê dessas fotos existirem – a menos que me conheça ou que tenha lido esse texto aqui. Ainda assim, as pessoas se sensibilizam, tiram fotos das minhas fotos e me enviam; dizem que é arte, falam coisas sobre amor.

Vai visitar!

Tanto a Claro & Escuro, quanto as demais exposições citadas, ficam nas estações até dia 01/08 sim, fui lerda demais para falar sobre ela por aqui!. Minhas fotos estão lá na Estação Pinheiros da CPTM na rua R. Capri, 145, no bairro de Pinheiros em São Paulo – SP. Se passar por lá e as vê, me conta o que achou! 🙂

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